Livro · Pessoal · Tradução

Literatura e contexto

Volta e meia eu comento por aqui que sou formada em Jornalismo e em Tradução. Mas desde que ingressei na vida acadêmica em 2009, não deixei de procurar por aqueles laços que unem a literatura e a vida real (real no sentido de não-ficional). Atualmente estudo Inglês e Italiano na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e em ambas essas áreas, existem disciplinas de literatura. Uma das primeiras coisas que aprendemos, seja em literatura inglesa, – ou italiana, ou brasileira, ou de qualquer país – é que não se pode compreender plenamente obra alguma sem antes compreender quando ela foi escrita, por quem foi escrita, em que período sócio-histórico-cultural essa obra se enquadra.

Pode parecer chato, mas o contexto nos ajuda a entender peculiaridades na ficção que, muitas das vezes, deixamos de perceber. Vou usar como exemplo a peça Ricardo III, de William Shakespeare. Na peça, o leitor é apresentado a uma descrição de tirano com ambição ilimitada que quase arruinou a Inglaterra. No entanto, hoje existem evidências científicas, literárias e arqueológicas para refutar esta visão. Bem, esse mesmo leitor pode se ver tentado a dizer que Shakespeare estava errado em descrever um rei dessa maneira. Eu acredito que a tragédia de Ricardo III é uma peça que sofreu a influência do que os estudiosos da tradução chamam de manipulação e patronagem.

Isto acontece quando um tradutor, ou no caso de Shakespeare, um escritor inclui em seu trabalho as exigências de um patrono (no caso dele, a rainha, uma Tudor cuja família teve uma duradoura disputa com o falecido rei de linhagem Plantageneta). Apesar de Elizabeth nunca ter feito qualquer pedido formal a Shakespeare sobre a peça em questão, a influência da propaganda Tudor e manipulação histórica do período é claro hoje em dia.

Todos esses fatos são produtos de uma análise que leva em conta não só a autoria da peça, mas também informações exteriores ao processo de escrita teatral. Basta procurar por aí na internet e é possível descobrir que Shakespeare, como o excelente dramaturgo que era, bebia de fontes históricas: suas peças possuiam elementos mitológicos, personagens baseados em figuras reais da história inglesa e afins. E saber disso permite ler suas peças com um olhar mais crítico pois o leitor exercita a pesquisa contextual ganha uma bagagem enorme na hora de analisar qualquer obra, não só as consagradas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s