Pessoal

A Herança

Meus filhos e meu único afilhado se perguntaram, durante boa parte da vida o que, de tão importante, eu mantinha num cofre na biblioteca. Aos 5 anos, minha filha mais velha, sem a ajuda ou influência de ninguém, formulara a teoria de que deveriam ser escamas de sereia que, de acordo com sua mitologia particular, eram raras e valiosíssimas. Quem era eu para lhe dizer que estava errada?

Mas meu afilhado, sempre esperto, lhe dissera que era mais provável que lá dentro, nas profundezas metálicas do cofre, estivesse escondido um baú do tesouro, envolto numa bandeira de pirata. Nem próximos ao mar nós morávamos, porém, novamente, não quis contradizer o menino. Aos 6 e já devidamente matriculada na escola primária, minha filha conseguiu convencer os irmãos mais novos, de 4 e 2 anos, que mamãe era uma cientista famosa e que em seu cofre secreto estava a cura para todas as doenças do mundo. À época, boa parte das pessoas do planeta teria desejado que ela estivesse correta.

Finda a infância e iniciada a adolescência, as crianças já não tão mais crianças voltaram seus interesses para coisas mais mundanas e nem tão misteriosas quanto o cofre na biblioteca. O único incidente registrado acontecera quando o mais novo da família, após falhar miseravelmente numa questão de intepretação de texto que lhe exigia parafrasear o ditado “todas as pessoas possuem esqueletos em seus armários”,  espalhara pelo colégio que sua mãe mantinha esqueletos humanos num cofre em sua casa. Em menos de uma semana, havia filas de adolescentes desesperados em sua insistência para ver os tais esqueletos que estavam em minha posse.

Quando julguei que todos já possuiam idade suficiente para ouvir a verdade (ou parte dela), reúni filhos e afilhado e lhes confidenciei:

– Vocês se lembram daquele velho cofre na biblioteca, não se lembram? Ele está ali desde antes de vocês nascerem, é quase uma relíquia de família.

– Mas claro que lembramos, mamãe. A senhora nunca nos contou o que tinha dentro, como poderíamos esquecer? – meu filho do meio se pronunciou.

– Muito bem, muito bem… Aposto que vocês gostariam de saber o que guardo nele. Estou certa?

– Certíssima, madrinha. Certíssima. – ouvi meu afilhado afirmar com animação.

– Pois bem. Vou dizer: o que guardo naquele cofre é o que vou lhes deixar de herança. Mas ouçam bem, o que quer que seja a herança, ela será dividida entre vocês. Nunca tive condições de dar a vocês presentes caros ou viagens ao exterior mas o que está no cofre é de coração.

Décadas transcorreram após aquela conversa. Meus filhos tinham 26, 24 e 22 anos e meu afilhado já era um homem feito, aos 30 anos. Sequer perceberam o tempo passar e raramente mencionavam o tal cofre quando nos reuníamos em dias festivos. Foi em meu aniversário de 88 anos que me dei conta que era excelente em guardar segredos, apesar da negativa de amigos e família. Eu havia mantido em sigilo a verdade sobre o cofre e seu contéudo misterioso até mesmo de meu marido, que insistira inúmeras vezes em abrir o bendito erário.

E eis que, ao fim da festa, ficamos só nós cinco: pais e filhos e o afilhado. Sentada na varanda e rodeada por aqueles que mais amava, decidi que era hora de compartilhar a verdade. De que adiantariam anos e anos de mistério se eu morresse de repente? De que havia valido todo o suspense se eu não acordasse no dia seguinte?

– É isso, meus caros. Chegou a hora. Busquem o cofre na biblioteca, vou deixar que o abram.

Ante a minha revelação, vi os olhos de minhas filhas se iluminarem. Meu marido segurou minhas mãos e me abriu um sorriso radiante, meus filhos bateram palmas e meu afilhado gargalhou com gosto. Só para os meus botões, conjecturei se Agatha Christie estava sentindo inveja de mim do além, pois meu cofre certamente fora um mistério indecifrável por um bom tempo. Acho que nem mesmo Sherlock Holmes e Hercule Poirot seriam capazes de adivinhar o que eu mantinha lá dentro.

– Estão lembrados do que eu disse anos atrás?  O que quer que esteja aí dentro, o que quer que seja a herança, ela será dividida entre vocês.

Dei-lhes a combinação do cofre: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21. Eu estava certa de que, como minha prole, os quatro seriam capazes de reconhecer aqueles números e achar o mínimo de graça toque de Dan Brown que eu dera àquela história toda. Quando a porta do cofre finalmente se abriu para revelar o interior, me deleitei ao ver meus filhos prendendo o fôlego, meu marido arqueando as sobrancelhas, meu afilhado arregalando os olhos e minhas filhas taparem as bocas com as mãos.

Não havia escamas de sereia, raras e valiosíssimas. Tampouco havia um baú do tesouro, envolto numa bandeira de pirata. Quem me dera que ali estivesse a cura para todas as doenças do mundo. E que bom que eu nunca pensara em colecionar esqueletos humanos. Lá dentro, perfeitamente conservado, estava a minha maior preciosidade, adquirida numa época em que era quase impossível adquirir qualquer coisa do tipo. Lá dentro estava minha edição de Alice Através do Espelho da editora Cosac & Naify.

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