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Quatro personagens em busca da autora

Antes que me apontem os dedos e digam que só escrevo histórias de fantasia, devo dizer em minha defesa que este post está aqui para desmitificar três dos meus personagens não-fantásticos mais queridos e apresentar uma variante do quarto. Embora eu não os tenha criado, eles dão vida ao conto A Luva Vazia, uma releitura de A Aventura da Casa Vazia, de Sir Arthur Conan Doyle.

A CORUJA

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No meu primeiro rascunho de A Luva Vazia, Sherlock Holmes era a personificação de coruja. Sempre vigilante, sempre atento aos detalhes e sim, uma criatura noturna. Conan Doyle o descreve com uma mente que nunca dorme e eu levei isso muito à sério. Especialmente considerando que a minha história se baseava naquela em que Holmes e Watson, seu companheiro de longa data, se reencontram após a morte do detetive em O Problema Final.

Se Sherlock sequer pensou em Watson da mesma maneira que o pobre doutor o fez nos anos em que Holmes esteve morto para o povo de Londres, esse é um mistério que Conan Doyle levou consigo para o túmulo. Porém, eu busquei uma saída para esses sentimentos. Não uma que descaracterizasse os dois, mas uma que fosse aceitável considerando a natureza de Sherlock, a natureza da coruja. Esse é o meu Sherlock, um homem que vive à distância, que valoriza a mente sobre o corpo, mas que faz tudo à sua maneira. E em virtude disso, é visto como seco, distante, desprovido de coração.

A verdade é que a personalidade de Sherlock se deixou amoldar pela de Watson, mesmo ele não admitindo esse fato. Pois Watson é o familiar, o fiel, o cão.

O CÃO

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Se Sherlock era uma coruja, não havia animal mais apropriado para descrever o Dr. John Hamish Watson do que o cão. Do primeiro momento em que o conhecemos, nos afeiçoamos a ele como nos afeiçoaríamos a um filhote. Em O Problema Final, a dor de Watson é a dor do leitor. Portanto, nada seria mais natural do que colocar a voz de Watson para ressoar em A Luva Vazia. Assim como nas histórias anteriores, ele é o narrador, o fiel personagem, aquele que não abandona o barco mesmo na tempestade.

Quando buscamos por sentimentos no cânone de Holmes, invariavelmente buscamos por Watson. E essa é uma característica incorporada por muitas das releituras feitas, sejam essas releituras na TV, no cinema ou na própria literatura. A cabeça é Holmes, o coração é Watson. E esse coração está machucado quando reencontramos Watson em A Luva Vazia pois ele mesmo nos conta. É aí que fica visível a diferença entre ele e Holmes. Ele se importa, ele não consegue se manter à distância, ele não esconde o que sente.

Não me surpreende que Sherlock tenha se deixado influenciar por Watson. Infelizmente, é por causa dessa ligação, desse vínculo único e exclusivo que existe entre eles que tudo sempre tende a ameaça-los.

O TIGRE

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Num tabuleiro de xadrez onde as peças brancas se preparam para dar início à partida, as peças pretas se colocam em suas posições. De um lado temos Holmes, a coruja e Watson, o cão. Do outro está o adversário: Sebastian Moran, o tigre. Esse felino de grande porte faz parte da simbologia do personagem,  segundo Conan Doyle. Coronel de ofício, dispensado desonrosamente, segundo homem mais perigoso de Londres.

Quando o Prof. Moriarty saiu de cena em O Problema Final, seu lugar não ficou vago por muito tempo. Embora eu desconfie que Moran jamais teria sido criado não fossem os apelos dos leitores que clamavam pela volta de Sherlock, não faria sentido algum simplesmente continuar do ponto de ruptura. Era preciso trazer o detetive de volta, era preciso desafiá-lo. E que desafio é maior do que aquilo que se opõe à natureza do homem? Esse é Moran, a besta, os movimentos calculados, a raiva direcionada. Se Moriarty era como um reflexo exato de Sherlock, Moran não o é.

O Coronel se deixa manipular, como um tigre treinado se deixa acariciar. Porém, seus sentimentos o movem. Não para o bem como movem Watson. Moran é o seu próprio exército de um homem só. Ele se vê como juiz, júri e executor. E sua raiva se esconde atrás da faceta de um cavalheiro. Ele é o perigo. Mas até mesmo o maior dos predadores tem alguém para lhe prender na coleira.

A SERPENTE

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Ela é beleza, é graça, ela vai socar a sua cara (she’s beauty and she’s grace, she’ll punch you in the face)… Essa é Hilde Adair. Para os familiarizados com A Aventura da Casa Vazia,  Hilde se chama Hilda e é a sombra de seu irmão Ronald. Muito embora Sir Conan Doyle tenha uma interessante predileção pela relação entre irmãos, vide Sherlock e Mycroft, eu decidi levar esse tipo de relação a outro patamar: a rusga, o rompimento, a separação.

Em A Luva Vazia, Hilde personifica a serpente no sentido de não atacar até ser atacada. Se algo ou alguém não oferece perigo à ela, dificilmente então ela irá mostrar sua real natureza. Uma mulher numa sociedade e numa história dominadas por figuras masculinas,   Hilde conquista seu lugar da maneira que lhe parece apropriada. Ainda que essa maneira seja ilegal e repreensível.

Sem entregar o enredo e seus desenrolares, só posso dizer que é ao redor de Hilde que gira A Luva Vazia. Sabemos o que ela permite que saibamos, acreditamos naquilo que ela quer que acreditemos e tomamos conhecimento da terrível verdade quando ela assim permite. Assim como uma serpente cujas presas ficam ocultas até o momento do bote, Hilde mantém suas intenções para si até o momento apropriado. Isso faz dela uma jogadora hábil e esperta, que não dá a mínima para opiniões não requisitadas.


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