Livro · Pessoal

Invisibilidade fantástica

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Foto de Laura Williams.

Se você jogar na caixa de busca do Google a expressão “literatura fantástica no Brasil”, aproximadamente 430.000 resultados irão ser computados. Mas se você pesquisar por “mulheres na literatura fantástica no Brasil”, esse número cai para 303.000 resultados. Não é preciso ser um gênio da matemática para perceber que existe algo de muito podre na literatura de fantasia desse país. E tenho certeza que, se estendermos essa pesquisa a outros gêneros da literatura nacional, a situação irá se repetir.

Em seu texto Quantas mulheres você leu?, Lady Sybylla apresenta um ponto importantíssimo: Mulheres acabam sendo sub-representadas nos enredos e também no mercado. Esse machismo passa com algo natural, como se a escrita da mulher fosse voltada para mulheres apenas, chick-list, enquanto o que é escrito pelos homens é “universal”.

Como escritora, invariavelmente me deparo com perguntas do tipo: Mas o seu livro é que nem o livro do escritor fulano de tal? ou Foi o escritor fulano de tal que inspirou o teu livro? e a pior de todas que é Você não está copiando o escritor fulano de tal não, né?. Essas perguntas sempre surgem especialmente se eu me apresento e digo que irei lançar um livro de fantasia. Será que é tão difícil assim aceitar que as mulheres são capazes de criar mundos, personagens e construir tramas com elementos de magia? Ou será que só os homens conseguem?

Um reflexo claro dos meus questionamentos está no mercado editorial. As editoras de grande porte têm em seu catálogo pelo menos uma dezena de livros de fantasia publicados por homens e menos da metade publicados por mulheres, isso quando são publicados. Não vou negar que fui inspirada por J.R.R Tolkien, que no fim das contas, inspirou praticamente todo mundo que escreve fantasia no Brasil e no mundo.

A questão é que, existe um preconceito horrível com os livros de fantasia escritos por mulheres, o que se encaixa dentro do que a Lady Sybylla afirmou mais acima. Numa postagem publicada recentemente, o blog Estação Leitura listou alguns autores nacionais de destaque no gênero, o que seria super normal se não fosse pela ausência completa de escritoras de fantasia. Inclusive nas referências do gênero não há qualquer menção aos trabalhos de autoras como Marion Zimmer Bradley e J.K Rowling, reconhecidas como grandes pilares da fantasia contemporânea.

Eu não tenho nada contra o blog em questão e muito menos contra os autores citados. Mas acontece que estou cansada e sei que outras muitas escritoras de fantasia nesse país também estão cansadas de serem menosprezadas e de terem suas obras resumidas a meras “cópias” do trabalho masculino. Nós não somos invisíveis não. Trabalhamos muito para conseguir dar vida às nossas histórias, já que criar um mundo único e construir nele uma história interessante e instigante não é moleza.

Não estou fazendo merchandising do meu próprio livro e nem nada desse tipo. Só estou pedindo a cada leitor que dê uma chance às autoras brasileiras de fantasia. Melhor dizendo, peço a cada leitor que dê uma chance às autoras nacionais. É essa a iniciativa do Leia Mais Mulheres, que eu apoio e dou fé! Vamos acabar com essa invisibilidade das nossas escritoras. Vamos acabar com o machismo no mercado editorial brasileiro. Vamos descontrair o preconceito que existe em torno dos livros escritos por mulheres no Brasil. Vamos ler mais mulheres mesmo! Mesmo não sendo algo fácil de alcançar, sei que algo possível. #leiamaismulheres.


Leia também:

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Um comentário em “Invisibilidade fantástica

  1. É extremamente cansativo. A gente se auto-sabota enquanto escritora, com aquela sensação de “meldels, vão descobrir a qualquer momento que eu não sei fazer isso” e ainda temos que conviver com gente que considera nosso trabalho menor.

    Mas isso vai mudar e está mudando, aos poucos. Temos é que nos fortalecer e nos unir. ❤

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